Mudanças na lei e medições da pista: o impacto do acidente em Congonhas na aviação

Por João Vieira
17/07/2017

Aeroporto de Congonhas

Reprodução Aeroporto de Congonhas

Pousar em Congonhas é um dos desafios mais populares da aviação internacional. O aeroporto doméstico, inaugurado em 12 de abril de 1931, foi envolto pelo desenvolvimento urbano de São Paulo e hoje é rodeado por prédios e avenidas movimentadas, o que não impede que ele seja o segundo mais movimentado do Brasil, perdendo apenas para o de Guarulhos, que é internacional.

Tudo mudou, porém, às 18h48 do dia 17 de julho de 2007.

Era uma noite chuvosa de inverno na zona sul paulistana. O trânsito tomava a avenida Washington Luís, que passa bem abaixo de uma das rotas de entrada e saída da pista principal. O voo 3054 da TAM, vindo de Porto Alegre, desceu pela entrada do Jabaquara. Em apenas 3 segundos, estava na beira da pista sem conseguir parar. Atravessou a avenida e bateu no prédio da própria companhia, do outro lado da via, pegando fogo.

199 pessoas morreram, sendo 187 na aeronave e 12 trabalhadores que estavam no prédio.

Memorial 17 de julho lembra as vítimas do acidente

Divulgação Memorial 17 de julho lembra as vítimas do acidente

As circunstâncias do acidente causaram horror e trouxeram consequências. Uma delas chegou na França, na Airbus, fabricante do modelo acidentado, que teve de substituir o sistema responsável pelos alertas sobre o recuo dos manetes que controlam as potências dos motores de seus aviões.

A alteração foi um pedido da European Aviation Safety Agency (EASA), logo após o Cenipa constatar que a tripulação do A320 movimentara só o manete de um dos motores para a posição Idle – espécie de ponto morto -, deixando outro na posição CL, de climb (subir). Com isso, o sistema de computadores do A320 entendeu que os pilotos queriam arremeter e não abriu os spoilers para ajudar a parar o avião. O jato atravessou a pista a 145 km/h.

Com isso, nenhum avião de carreira sem aviso sonoro que alerte os pilotos de um problema semelhante pode pousar em CGH. Além disso, somente aqueles com 100 horas de voo, que tenham treinado arremetida após o trem de pouso tocar no solo, podem pousar ou decolar Boeings e Airbus em Congonhas. As exigências são da Anac (Agência Nacional da Aviação Civil).

O aeroporto recebeu, em 2013, uma nova torre de controle. Em junho, mais uma reforma atingiu a pista principal, buscando evitar o acúmulo de água – um dos problemas relatados em 2007 – em dias chuvosos. Desde 2004 até a data do acidente, Congonhas era alvo de atritos e reclamações pelas condições do pavimento. “O pavimento da pista estava desgastado e ficando abaixo dos padrões mínimos”, afirmou, ao jornal Estadão, o coronel da Aeronáutica Fernando Silva Alves de Camargo.

Voo 3054 da TAM sofreu acidente em 2007

Reprodução Voo 3054 da TAM sofreu acidente em 2007

Medições da pista foram alteradas
Pode soar estranho, mas a pista de Congonhas ficou menor depois do acidente. Mas calma, não é bem assim.

O “encolhimento” ocorreu para que as áreas de escape fiquem maiores, sendo consideradas e aprovadas dentro do cálculo de segurança de pouso e decolagem. Antes, a conta usava 1.940 metros da pista principal. Agora, o cálculo deve ser feito como se a pista tivesse 1.660 para pouso e 1.790 para decolagem. Os aviões de carreira agora só podem descer com menos combustível e a pista auxiliar só pode ser usada para decolagens.

Mudanças na lei
Apesar de ninguém ter sido punido pelo ocorrido com o voo 3054, o acidente fez nascer, em 2014, uma lei que separa a investigação judicial, abrigando esferas criminais e civis, da apuração das causas do ocorrido. “Nosso trabalho se baseia não só em fatos, mas também em hipóteses. Se usado como prova, ele pode levar o juiz a tomar decisões equivocadas”, afirmou, ao Estadão, o brigadeiro Frederico Alberto Marcondes Felipe.

Mudanças na TAM
Hoje LATAM, resultado da fusão entre LAN e TAM, a empresa disse ao Estado de S Paulo que todas as recomendações feitas após o acidente foram adotadas. “Destacamos a criação de programas para reforçar a conscientização sobre segurança operacional entre todos os funcionários; aperfeiçoamento do sistema de reporte para situações de riscos, de forma voluntária e sem a necessidade de identificação do funcionário; e reforço do procedimento adequado da tripulação, em eventual caso da aeronave operar com restrições no reversor”, diz a companhia.

Veja a galeria

você tem que ler