Gordofobia, xenofobia e racismo: sinais de que ‘Malhação’ não evolui em anos

Por João Vieira
17/02/2017

malhacao

Além de ser um laboratório para jovens promessas do acervo de atores globais, Malhação desde seu começo teve a função de preencher uma faixa de horário tradicionalmente voltada para o público adolescente, que busca um entretenimento direcionado e que aborde a sua realidade.

Em cima disso, não de hoje a série se arrisca a tratar de temas espinhosos, como bullying, violência contra a mulher, questões comportamentais e, mais recentemente, racismo, xenofobia e homofobia.

O problema é que a abordagem tem tido como resultado reações completamente opostas ao que (teoricamente) se propunha, com diálogos absolutamente equivocados que comprovam que, em quase 22 anos, Malhação não evoluiu em nada.

Gordofobia

(Foto: TV Globo/Reprodução)

(Foto: TV Globo/Reprodução)

Em cena que foi ao ar no episódio de quarta-feira (8), a série acabou mostrando um diálogo entre Giovane, jogador de vôlei de praia, e  Joana, a namorada que causa um ciúmes danado nele. Aí, Giovane diz que gostaria que a namorada ficasse gorda para que as pessoas parassem de paquerá-la. Com um ar de quem gostou do que ouviu, Joana rebate: “Ahá, gorda? Pra você me largar? Nada disso!”. O vídeo da cena está aqui.

 

Xenofobia 

Sula vivia uma cearense

TV Globo/Divulgação Sula vivia uma cearense

Na mesma temporada, Malhação foi acusada de xenofobia ao mostrar um diálogo entre Sula, vivida por Malu Falangola, e Rômulo, interpretado por Juliano Laham. A moça é cearense e acaba de chegar ao Rio de Janeiro. A resposta da personagem ao ser perguntada por Rômulo se ela estava gostando de morar no Rio é inacreditável: “o quê? Aqui tem tanta gente bonita que eu estou até com saudade de ver gente feia”, disse ela.

 

Desinformação sobre AIDS

'Malhação' foi criticada por reproduzir preconceito sobre AIDS

TV Globo/Reprodução ‘Malhação’ foi criticada por reproduzir preconceito sobre AIDS

O famoso episódio “Lucinha Araújo” aconteceu há dois anos, em 2015, quando uma personagem foi orientada a tomar um coquetel antiviral após bater de cabeça com um colega soropositivo durante uma aula de educação física. Lucinha, presidente da Sociedade Viva Cazuza, publicou uma nota oficial repudiando a cena exibida pela Globo. “Como se não bastassem todos os problemas que nós brasileiros estamos sofrendo, ainda temos que ver em pleno ano 2015 o programa MALHAÇÃO da TV Globo prestar um desserviço à saúde pública. Há 10 anos vemos os novos casos de Aids aumentando entre jovens, segundo o Boletim Epidemiológico do Ministério da Saúde, por transmissão sexual. Depois de 30 anos de trabalho para combater o preconceito e informar corretamente as formas de transmissão do HIV, vemos um programa destinado ao público jovem aconselhar soropositivos a não praticar esportes, a mostrar um médico receitar medicamento antirretroviral numa situação onde dois jovens dão uma cabeçada é no mínimo de chorar”, diz o texto.

 

Racismo discutido de forma rasa 

Aline Dias, primeira protagonista negra de 'Malhação'

TV Globo/Divulgação Aline Dias, primeira protagonista negra de ‘Malhação’

Demorou 21 ANOS para que Malhação finalmente colocasse um protagonista negro em uma temporada. Foi Joana, faxineira (óbvio) vivida por Aline Dias. Na história, ela é alvo de racismo (óbvio 2) quando é indicada pelo chefe, por “saber falar bem com as pessoas”, e ao ir advertir o casal branco Bárbara (Bárbara França) e Gabriel (Felipe Roque). A trama começa a discutir racismo ao mostrar uma vilã loira que não tem vergonha de exalar seu preconceito, mas se baseia em estereótipos clássicos ao falar de negros, como colocá-los em profissões de serviço e como alvos de racismo descarado, quando, na verdade, o racismo mais comum no Brasil hoje em dia é o velado e contra negros de todas (sim, eles estão em todas) as classes sociais.

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