“Acontece, é comum e não se fala sobre”, diz psicóloga sobre suicídio

Por João Vieira
20/04/2017

Hannah Baker é a protagonista de '13 Reasons Why'

Netflix/Reprodução Hannah Baker é a protagonista de ’13 Reasons Why’

O suicídio está em evidência no Brasil e no mundo. Desde o lançamento da série 13 Reasons Why, o Centro de Valorização da Vida (CVV) notou um crescimento fora do normal de pedidos de ajuda nos canais de comunicação. Os e-mails quase quintuplicaram, indo de uma média de 55 para 300. Os acessos ao site saltaram de 2,5 mil para 6,7 mil. As pessoas estão pedindo mais ajuda por pensamentos suicidas e casos de depressão.

O gatilho, na maioria dos casos, foi 13 Reasons Why.

As pessoas se identificam com Hannah Baker, garota que se mata na série após sofrer diversos ataques motivados por bullying, além de enfrentar casos de violência sexual. A trama estreou no dia 31 de março e tem Selena Gomez como uma das produtoras.

Além disso, o “jogo” virtual Baleia Azul, criado na Rússia em 2015, virou mania por aqui. São 50 desafios propostos por um “curador”, incluindo uma série de mutilações ao próprio corpo, envolvimento em situação de risco e o 50º passo: tirar a própria vida.

Investigações por todo o Brasil apontam o crescimento de casos de suicídio com indícios de relação ao Baleia Azul, enquanto outros especulam uma motivação causada por 13 Reasons Why. Nada, porém, foi concluído.

Coordenadora do curso de Psicologia da Universidade Cidade de São Paulo (UNICID) e especialista em comportamento adolescente, a professora Ana Flávia Costa Parenti conversou com o Virgula sobre suicídio e depressão, doença que, no Brasil, já atinge ao menos 17 milhões de pessoas. A entrevista você confere abaixo:

Virgula – A série tem sua restrição de idade, que é 16 anos, e é voltada para o público adolescente. Do ponto de vista dos pais que têm filhos em situações vulneráveis, como eles lidam, é melhor não tentar impedir o adolescente de assistir?
Ana Flávia Costa Parenti
– Eu acho assim, é difícil proibir. O acesso hoje em dia é muito fácil, então você proibir em casa não vai gerar a resposta adequada porque o jovem procurará outro lugar para assistir. Acho que a melhor solução é deixar a critério do jovem e dizer do que a série trata. Se ele falar ‘eu quero assistir’, acho que a melhor opção é os pais também assistirem pra poderem discutir os assuntos que estão sendo tratados. Porque não é só a questão do suicídio, você tem a questão do bullying, do assédio sexual, diversas outras questões sendo tratadas que, de certa forma, permeiam a vida do adolescente. Existem aquelas situações que a personagem vive, que ele também vive, guardadas às devidas proporções. Ele vai se identificar com ela e, não necessariamente, isso vai leva-lo a cometer suicídio. Porém, é importante que os pais usem essa série para discutir o assunto. Assistam também, junto ou não, e tenham conhecimento do que se trata e discutir com o filho, até mesmo quando ele traz uma queixa de bullying, por exemplo. Então tem que discutir com a criança pra que se torne uma conversa mais aberta, mais amigável. O jovem tem que sentir que ele tem apoio do pai, da mãe, dos familiares, dos amigos, pra que se ele estiver pensando em tirar a própria vida, ou se mutilar de alguma forma, há pessoas ali que o amam e o apoiam. Os problemas que ele está passando podem ser discutidos, conversados.

Na Bahia, jovem de 15 anos se suicidou supostamente após participar do Baleia Azul; ela deixou uma carta

Reprodução/ TV São Francisco Na Bahia, jovem de 15 anos se suicidou supostamente após participar do Baleia Azul; ela deixou uma carta

Virgula – Sobre os jogos virtuais, como conseguimos identificar que o jovem está buscando algum tipo de fuga nesses jogos, sem invadir a privacidade dele?
Ana Flávia – 
Aí tem duas questões, primeiro que sempre se fala na mídia que os pais têm que ficar muito atentos ao que o filho consome na internet, dos grupos que faz parte, por um lado para alertá-los sobre coisas indevidas. E, por outro lado, que é sempre um caminho para se identificar sinais. Dependendo do site que ele visita, das redes sociais, são indícios do que se passa na cabeça dele. O jovem dá sinais de que está vivendo algum momento de vulnerabilidade. Seja porque está depressivo ou vivendo alguma situação de bullying na escola, ele vai dar sinais de que alguma coisa não vai bem. Vai começar a se isolar socialmente, deixar de sair com amigos, quer ficar no quarto sozinho. Pode ter mudança brusca de humor, comportamento, falar frases do tipo ‘não aguento mais’, ‘queria acabar com isso logo’. Ele pode também já ter esse hábito de se machucar, cortar os braços, as pernas, algo que pareça um acidente mas que, na verdade, ele quis se ferir. São sinais que os pais podem identificar que ele está precisando de apoio e ajuda. Uma tristeza profunda que dura muitos dias… essa vulnerabilidade, que é inerente ao adolescente em geral, pode fazer com que ele fique mais predisposto a sofrer influência desses jogos. Porque se ele já está vulnerável, aumenta a influência desse tipo de coisa na vida dele, e aí ele pode acabar se envolvendo até por uma questão emocional de depressão. Os pais devem ficar alertas para que ele não precise buscar esse tipo de artifício na vida dele, porque ele vai mostrar aos poucos.

Virgula – Quais cuidados devemos ter para informarmos as pessoas sobre suicídio e depressão de uma forma responsável?
Ana Flávia – 
A Organização Mundial da Saúde (OMS) diz que, no mundo, são quase 1 milhão de mortes por suicídio. Isso acontece, é comum e não se fala sobre. Existe o preconceito, que, muitas vezes, vem da vergonha. A questão da depressão é a mesma coisa. Estima-se que, no Brasil, temos 17 milhões diagnosticados com a doença. Mas quantas que não foram diagnosticadas existem? É um número muito alto. A OMS prevê que, até 2020, a depressão será a doença mais incapacitante do mundo. É um assunto que precisa ser discutido. A pessoa doente vai dizer isso pra um amigo ou parente e, normalmente, o que ela vai dizer? ‘Ah, isso é passageiro, coisa da sua cabeça. Vamos dar uma volta, espairecer que passa’. Existe uma dificuldade das pessoas entenderam que a depressão é uma doença e é uma doença grave. Quando você fala pra uma pessoa ‘é coisa da sua cabeça’, quem tem depressão vai se sentir desamparado e vai entrar mais fundo ainda nessa depressão. A gente precisa se conscientizar de que é uma doença incapacitante e pode levar a pessoa à morte.

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